Durante o Setembro Amarelo, campanha nacional de prevenção ao suicídio, a Editora Fiocruz chama a atenção para a importância do cuidado em saúde mental com uma série de obras que resgatam a história da psiquiatria no Brasil e refletem sobre os caminhos da reforma psiquiátrica, marcada pela defesa da liberdade, da dignidade e do cuidado humanizado em saúde mental.
Até poucas décadas atrás, o modelo predominante era o de hospitais psiquiátricos superlotados e afastados da vida social. Um exemplo é retratado no livro O Hospício da Praia Vermelha: Do Império à República (Rio de Janeiro, 1852-1944), que reconstrói a trajetória de uma das principais instituições da época e analisa como seu funcionamento esteve atrelado aos contextos políticos e sociais do país.
A mudança de paradigma começou a se consolidar a partir da luta antimanicomial. Inspirado pela experiência italiana liderada pelo psiquiatra Franco Basaglia, o movimento ganhou força no Brasil na década de 1980 e resultou na Reforma Psiquiátrica, oficializada pela Lei nº 10.216/2001. Essa transformação propôs substituir o modelo asilar por uma rede de serviços comunitários, baseada no cuidado em liberdade e na reinserção social.
Diversas publicações da Editora Fiocruz registram e analisam esse processo. Obras como Psiquiatria Social e Reforma Psiquiátrica, Um Manicômio em Colapso: da aridez do abandono à fluidez da liberdade, A Reforma Psiquiátrica e Loucos pela Vida: a trajetória da Reforma Psiquiátrica no Brasil exploram momentos decisivos da história, trazendo relatos de experiências, mobilizações políticas e personagens que marcaram a luta pela transformação do cuidado em saúde mental.
Entre essas figuras de destaque está a psiquiatra Nise da Silveira, pioneira na humanização do tratamento psiquiátrico. Sua vida e legado são celebrados na obra Mania de Liberdade: Nise da Silveira e a humanização da saúde mental no Brasil, que evidencia a importância de sua atuação no fortalecimento da reforma brasileira.
A consolidação desse novo modelo de atenção ocorreu com a criação dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), das Residências Terapêuticas e a inclusão da saúde mental na atenção básica do SUS. Hoje, os CAPS oferecem atendimento aberto e humanizado, oficinas terapêuticas, acompanhamento clínico e apoio à reinserção social, além de ações voltadas a populações em situação de vulnerabilidade.
Complementando esse debate, a Editora Fiocruz também publica títulos como Saúde Mental para Atenção Básica, Saúde Mental e Atenção Psicossocial e O que é o SUS, reforçando sua missão de difundir conhecimento científico de qualidade e contribuir para a defesa da saúde mental como direito humano fundamental.
Para o pesquisador e psiquiatra Paulo Amarante, uma das maiores referências no campo da saúde mental no Brasil e editor da Coleção Loucura e Civilização da Editora Fiocruz — conjunto de 14 obras fundamentais para compreender a história, as práticas e as políticas públicas relacionadas à saúde mental no país —, a discussão sobre sofrimento psíquico vai além do atendimento individual e precisa ser encarada como questão coletiva:
“Vivemos uma grande falta social que é esse lugar inalcançável de uma felicidade que ninguém está encontrando. Então, onde está esse lugar de perfeição, de bem-estar? Teríamos que pensar nisso. Qual seria o caminho? Pensar mais no coletivo de maneira menos individualista para construirmos uma sociedade menos adoecida.”
As obras citadas no texto podem ser adquiridas na Livraria Virtual da Editora Fiocruz e na plataforma SciELO Livros.